terça-feira, 14 de agosto de 2018

Entrevista com co-criador de Back to the Future, Bob Gale


Bob Gale é o co-criador, co-roteirista e co-produtor da Trilogia Back to the Future (De Volta para o Futuro, BRA / Regresso ao Futuro, POR / Volver al Futuro, ESP) junto do diretor Robert Zemeckis. Bob G. e Bob Z. são amigos já há muito tempo e também colaboradores. O filme Back to the Future foi algo que vinham planejando por muito tempo antes de se tornar uma realidade (e um inesperado sucesso, posteriormente).


A dupla fez juntos I Wanna Hold Your Hand (Febre de Juventude, BRA / Beatlemania, POR - 1978) e Used Cars (Carros Usados - 1980) no início de suas carreiras. Ambos os filmes foram bem recebidos, mas eles não conseguiram cativar os estúdios no tipo de retorno que todos estavam esperando. Zemeckis e Gale escreveram o filme 1941 (em 1979), na qual Steven Spielberg o dirigiu, e infelizmente este filme é conhecido até hoje como um dos maiores fracassos financeiros do diretor Spielberg...

Enquanto estavam trabalhando em outros projetos, Back to the Future estava sempre sendo desenvolvido e trabalhado por ambos, Bob Gale e Bob Zemeckis. O grande problema que eles tiveram no desenvolvimento foi o gancho (pra fazer funcionar a história). O que eles poderiam fazer pra tornar BTTF diferente de tantos outros filmes sobre aventuras em viagens no tempo que já existiam por aí? Um dia então foi quando Bob Gale viu o livro do anuário escolar da época do colégio de seu pai. Aquilo deu um estalo em Gale! E se ele estudasse no colegial junto com seu pai? Será que ele iria gostar do seu pai se eles estivessem estudado juntos? Será que eles seriam amigos?


Mesmo com a ideia, e eventualmente um roteiro, eles passaram por uns maus bocados para conseguir um estúdio para fazer o filme. Alguns estúdios acharam que o filme era muito infantil e não tinha o apelo que estavam procurando naquele momento. Foi então que Zemeckis eventualmente deu um tempo em tentar fazer algo com BTTF. Neste tempo Zemeckis dirigiu o filme Romancing The Stone (Tudo por uma Esmeralda, BRA / Em Busca da Esmeralda Perdida, POR - 1984). O filme foi surpreendentemente um sucesso e deu à Zemeckis e Gale uma liberdade para finalmente trazer BTTF em realidade. Eles entregaram o roteiro do filme nas mãos do amigo Steven Spielberg para produzir. Steven já sabia sobre a existência de Back to the Future desde quando a primeira versão do roteiro foi escrita e de quando produziu I Wanna Hold Your Hand e Used Cars (ou seja, desde o final da década de 70 e início da década de 80 eles já estavam pensando em Back to the Future).

O filme se tornou o maior sucesso mundial de bilheterias em 1985 (ganhando um OSCAR® por Melhor Edição de Som). Acabou inspirando duas continuações de sucesso e até hoje considerada uma das maiores e melhores trilogias de todos os tempos. Considerando toda a série BACK TO THE FUTURE podemos afirmar que é uma das mais amadas peças de arte da cultura pop que já existiu na história dos filmes de Hollywood.


Em uma entrevista conduzida pelo jornalista Adam Chris Better (na qual nos cedeu pessoalmente o direito de traduzir esta entrevista), ele conversou com Bob Gale sobre a criação da trilogia, as histórias em quadrinhos e como ele lida com o sucesso do fenômeno mundial, que ajudou a criar, chamado "Back to the Future" (um breve parênteses: ainda bem que o título do filme não ficou como o chefão da Universal Studios, Sid Sheinberg, queria chamar na época de "Spaceman from Pluto").



Entrevista com Bob Gale, em 16/Julho/2018 

Você comentou em entrevistas passadas que as histórias em quadrinhos (comic book, ING / banda desenhada, POR) sempre foi uma paixão desde sua infância. Elas ajudaram a inspirar você a se tornar um escritor. Com este mundo das HQs dominando a indústria (principalmente com a invasão Hollywoodiana pelo tema), você já chegou a pensar em tentar escrever um filme de história em quadrinhos?

Sim. Eu escrevi dois rascunhos do Doutor Estranho lá nos anos 80. Acabei flertando com isso na época. Era sempre muito difícil não estar no controle do material. Sendo uma pessoa criativa você quer manter suas mãos no controle o tempo todo. Quando começa a lidar com coisas que envolvem outras "mãos" (que existam outras pessoas envolvidas) acaba se tornando algo difícil de lhe dar. Tentei uma vez com Doutor Estranho, mas era algo que não iria pra frente naquela época.


Também escrevi histórias para os quadrinhos americanos (HQs / banda desenhadacomic books). Me diverti fazendo aquilo. Escrevi os primeiros arcos da história Batman: Terra de Ninguém (No Man’s Land - que saiu pela primeira vez aqui no Brasil na Editora Abril e recentemente, em encadernados de capa dura, pela Editora Eaglemoss). Escrevi a edição número 6 da revista mensal do Demolidor. Também escrevi um bocado de histórias para a HQ do Homem-Aranha, para o arco de história Um Novo Dia (Brand New Day - que saiu na época pela Editora Panini e mais recentemente, em encadernados de capa dura, numa coleção específica do Homem-Aranha pela Editora Salvat). Os editores da DC e Marvel pensaram que seriam bom ter alguém que poderia aproximar as HQs para uma sensibilidade mais cinematográfica.

O que você acha de todo este movimento de filmes baseados em histórias em quadrinhos que está acontecendo agora?

Eu nem vou mais nos cinemas ver estes filmes. Sequer eu entendo eles. Gostei bastante do primeiro filme dos X-Men (do diretor Bryan Singer, em 2000). Gostei bastante do primeiro filme do Homem de Ferro (do diretor Jon Favreau, em 2008). Do primeiro Capitão América (do diretor Joe Johnston, em 2011) e do primeiro Thor (do diretor Kenneth Branagh, em 2011) eu gostei também. Uma vez que começou a ter estas interligações e você precisa ver todos os filmes para entender a coisa toda... Me desculpe mas não é pra mim... funciona pra Marvel, mas essa coisa toda de continuidade é o que me afasta das HQs. Só quero ler 2 ou 3 revistas por mês. Se precisar ter que ler mais de 10 revistas pra entender o que está acontecendo, poxa vida, aí não é mais divertido.

Coisa de um ano atrás, ou algo assim, haviam rumores de que Robert Zemeckis poderia dirigir um filme do Flash para a DC Comics (leia mais aqui). O rumor era que poderia ser uma adaptação da história Flashpoint (conhecido no Brasil como Ponto de Ignição), e poderia conter viagem no tempo. Pensava-se que poderia ser um filme parecido e inspirado com Back to the Future. O diretor Zemeckis chegou a falar com você sobre isso?

Bob chegou a mencionar isso, sim. Ele estava próximo da Warner Bros. e da DC todo este tempo enquanto estavam conversando e negociando sobre isso. Eu sei de uma coisa que ele adoraria fazer é com o personagem Sargento Rock. Ele adora o tema da Segunda Guerra Mundial. Acho que ele estava envolvido com uma versão disso em algum momento.

Veja bem, a parte mais difícil a respeito desses filmes baseado em histórias em quadrinhos é que não importa o que faça sempre via estar irritando as pessoas. Todo mundo tem sua própria ideia, sua própria opinião, sobre como essas coisas deveriam ser. As vezes eles acertam em cheio, outras vezes não muito. As vezes as pessoas tem uma interpretação diferente daquele personagem do que eu tive... E por aí vai... O público está gostando. Ótimo! Está trazendo dinheiro pra indústria. Ótimo!


Você e Zemeckis queriam fazer um filme sobre viagem no tempo à bastante tempo. Vocês se retorceram pra conseguir um bom gancho pro filme. Quando você encontrou aquele livro do anuário do colegial do seu pai, você descobriu uma maneira de tornar aquilo algo único. Alguns dos seus trabalhos anteriores com Zemeckis, como no filme Used Cars e 1941, foram mais ousados do que Back to the Future. Vocês sempre imaginaram Back to the Future como um filme pra toda família? Como uma leve comédia?

Não era isso enquanto a gente não tinha o gancho (pra história). Não sabíamos o que poderia ser... Pensamos sobre o mecanismo da mudança da história. Será que seria interessante ter alguém conversando com o Presidente Harry S. Truman (33º presidente dos EUA, de 1945 até 1953) sobre a queda da Bomba Atômica? Isso foi só uma das conversas que tínhamos quando estávamos tentando encontrar algo que desse aquele estalo, sabe? Mas nenhuma dessas ideias faziam isso.

A grande epifania, além do conceito de ir para o colegial junto com os pais, foi a ideia de criar uma história de ficção que poderíamos alterar alguma coisa... Não daria para alterar quem fosse o Presidente dos Estados Unidos. Existem muitos filmes, há vários episódios do Twilight Zone (Além da Imaginação, BRA / A Quinta Dimensão, POR), onde personagens tentam mudar a história e não conseguem. Pois se eles mudassem a história o público iria agarrar pelas cabeças e diriam "Qual é a a dimensão do espaço-tempo continuum que estamos vivendo?" Isso foi uma das grandes coisas que estávamos preparados para lidar com Back to the Future, algo que nunca houvesse sido feito antes, não que eu saiba. O truque, e a dificuldade, de fazer um filme sobre viagem no tempo efetivo é desviar de todos os tipos de paradoxos (leia nosso artigo explicando os problemas deles) e como mudar a história.


O gancho para a história do filme, um garoto indo para o mesmo colégio que os pais frequentavam, isso nos remete à um tom de "filme família" amigável?

Com certeza! Como não ter um tom de humor com a ideia de ir pra escola em que seus pais frequentavam?

Levou um tempo pra vocês conseguirem fazer BTTF pois os estúdios sentiam que era uma história um tanto quanto leve. A temática 'comédia de adolescente dos anos 80' teriam mais a ver com eles. Quando vocês receberam "este tipo de rejeição", não consideraram fazer um filme com temática mais adulta?

Não, não. Pensou errado. É difícil quando você já percebeu como chegou até aqui. É difícil quando você percebe que seus pais fizeram isso, aquilo. O que é que aconteceu em quatro paredes, no banco de trás do carro, num quarto de motel... Essas coisas você não quer ficar pensando muito sobre. Essas coisas sempre foram um tabu. Queríamos andar na linha com muito, muito cuidado. Essa foi uma das coisas mais difíceis para nós.

Vocês tinham uma agenda de pós-produção extremamente curta e corrida. Isto se deu em parte a uma fantástica pré-estréia que BTTF teve em San Jose, na Califórnia, e o estúdio desejou rapidamente o lançamento final. Este cronograma apertado prejudicou alguma coisa na versão final do filme, no corte cinematográfico que conhecemos? Vocês queriam ter tido mais tempo pra finalizar algumas coisas pra edição final?

Ficamos satisfeitos com a edição final do filme. Existem alguns poucos efeitos especiais que poderiam ter ficado melhor se tivéssemos um pouco mais tempo. Por exemplo, a gente nunca ficou satisfeito o suficiente com aquela mão do Marty desaparecendo na cena do Baile Encanto Submarino. Foi um tiro no pé, ou melhor, na mão. Nunca ficava do jeito que a gente havia pensado. Porém chega num ponto em que tivemos de dizer "Tá bom desse jeito. Vai ficar assim mesmo. Temos que lançar o filme".


As pessoas sempre perguntam se existirá uma "versão do diretor"? NÃO! O filme em si já é a versão do diretor. As cenas deletas que existem podem ser encontradas na versão de DVD e/ou Blu-ray. Muito deste conteúdo estava na primeira pré-estréia que exibimos em San Jose. Preferimos cortar algumas cenas pois quando percebemos que a audiência não estava rindo de cenas que achamos que iriam rir ou que algumas delas estava diminuindo o ritmo do filme, a gente resolver retirá-las. Existia uma versão mais elaborada da cena do Darth Vader (quando o Maty usa o truque pra convencer o George à convidar a Lorraine pro baile) e cortamos ela pela metade. Não precisávamos de nada além do que ficou no filme. Em termos do que foi escrito no roteiro... é como se fosse a mesma piada repetida várias e várias vezes. O público já havia entendido e foi muito mais engraçado quando o George aparece no dia seguinte correndo atrás do Marty dizendo que o Darth Vader havia lhe dito que iria derreter o cérebro dele.

Recentemente assisti uma entrevista com Tom Wilson (Biff) onde ele disse que naquele verão de 1985 ele sentiu que o filme mais divulgado e com mais hype (por parte da Amblin) era Os Goonies. Você concorda com isso também? Você sentiu isso lá em 1985?

O filme que a gente mais se preocupou foi um chamado Explorers (Viagem ao Mundo dos Sonhos, BRA / Os Exploradores, POR - também de 1985, dirigido por Joe Dante). Nós achamos que este seria o grande filme. Ninguém tinha ouvido falar de Back to the Future. Estávamos fora do radar... Na verdade, a gente estava com "problemas" por ter demitido o jovem Eric Stoltz (só lembrando que Stoltz foi substituído por Michael J. Fox depois de 6 semanas que as filmagens já haviam se iniciado). Ninguém havia percebido o quão grande negócio M.J.Fox realmente era. Quando você está fazendo seu filme, você está fazendo apenas o seu filme. Especialmente com a agenda de pós-produção que a gente teve. Nem dava tempo de nos preocupar com o que os outros estavam fazendo. Você acaba aprendendo de um jeito rápido que ficar se preocupando com o que as outras pessoas estão fazendo é uma grande perda de tempo. De qualquer maneira, não dá pra você fazer nada a respeito disso... O que dá pra você fazer é o melhor filme que conseguir! Isso era no que estávamos focado.

Eu sou um fã da trilogia desde 1985. Quando criança, fiquei desapontado pois não existia muitos produtos licenciados de Back to the Future disponíveis, especialmente se comparado a Star Wars. Quando vieram as sequências (parte II e III), até tínhamos algumas coisa, mas ainda não o suficiente. Existiu alguma razão do por que os produtos licenciados de Back to the Future foram tão escaços quando os filmes foram lançados na época?


Para o primeiro filme a resposta é um tanto quanto óbvia... ninguém o conhecia ainda. Ninguém sabia que seria um sucesso. Nem existia o conceito de que com o filme poderia render algum tipo de merchandise (produto licenciado). Acho que se a gente voltar e ver quando o filme do Star Wars foi lançado, em 1977, não existia nenhum colecionável [no texto original da entrevista ele usa o termo toy - brinquedo] até o Natal daquele ano. Naquela época os produtos licenciados não eram como se é hoje em dia e a franquia Star Wars foi o primeiro filme investir nisso, antes de se juntar à Disney, que sempre gerou uma quantidade maior disso. As empresas começaram a se perguntar qual seria o próximo Star Wars? Antes disso, a não ser se fosse um desenho animado da Disney, você não encontrava um filme que arrecadava aquele tipo de produtos licenciados da mesma forma. Isso responde porque não houve produtos licenciados para o primeiro filme de Back to the Future naquela época. Para o segundo filme já começou a ter mais coisas. A razão que não houve mais coisas, como Star Wars teve, é porque os atores não se sentiam confortáveis em licenciar a imagem deles pra um action figure, por exemplo. Então por isso houve um monte de brinquedos do DeLorean (risos).

Você ficou com alguns itens usados do filme. Você compartilhou um Hoverboard da sua própria coleção... Você chegou ter a chance de segurar um dos tênis Nike Air Mag da parte II?


Não. Verdade seja dita, o fato desses tênis terem se tornado uma grande sensação é realmente bem inacreditável para mim. "Colecionadores de Guarda-Roupas"... humm, existe algo muito esquisito nisso pra mim (risos). Mas o que você pode fazer? Os meus pés são muito maiores do que do Michael J. Fox. O tênis que fez aquele trabalho, aquele movimento de se amarrar sozinho, haviam vários fios vindo de tudo que é lado. Talvez já deve ter visto aquela famosa foto, com Michael em pé numa plataforma com os tênis e abaixo no chão estão uns 6 homens dos efeitos especiais se preparando para puxar todos os fios, tudo pra fazer os tênis se laçarem automaticamente.

Recentemente um Nike Air Mag foi vendido no eBay por 92 mil dólares. Chegou a ver isso?


Ah sim. E nem era um screen used [nota: termo usado para designar quando um prop - (theatrical) property - ou peça, foi usado nas filmagens], era apenas um protótipo. Foi em 2011 quando o fenômeno começou quando apresentei o primeiro modelo promocional do Nike Air Mag (na qual foram leiloados à Fundação Michael J. Fox em 2011 e 2015). Não tinha ideia de que pessoas ficariam esperando numa fila por dias a fio por um novo tênis do Michael Jordan... Sempre existe uma subcultura pra tudo.

Falando das sequências, especialmente da Parte II, são muito bem aceitas e amadas até hoje. Mas, quando foram lançadas na época pela primeira vez, a resposta do público foi bem misturado (uns gostaram muito, outros nem tanto, e coisas do tipo). Você chegou a comentar anteriormente que achou que a Parte II foi mal comercializada e o público não sabia que um terceiro filme estava por vir. Ainda sente isso hoje em dia?

Sim. Realmente, o público não sabia o que estava por vir. Tive umas discussões com Tom Pollock, quem estava dirigindo a Universal naquela época, a respeito disso. Eu estava realmente convicto de que deveríamos promover Back to the Future II como a segunda parte de uma trilogia. As pessoas deveriam saber antes de comprarem seus ingressos que haveria um terceiro filme. Tudo isso resultou de duas coisas; uma dessas coisas foi quando vi The Empire Strikes Back (O Império Contra Ataca, Star Wars / Guerra Nas Estrelas: Episódio V - de 1980) pela primeira vez e no final Han Solo ficou congelado pela carbonita. Estava saindo do cinema dizendo: "Que diabos de tipo de final é esse?" Meu personagem favorito está morto e não sabemos se ele vai voltar à vida? Nós nem sabemos se haverá outro filme? Antes disso, a melhor coisa que o diretor Richard Lester fez na sua versão de Os Três Mosqueteiros, em 1973, foi colocar um trailer de um minuto de Os Quatro Mosqueteiros, de 1974. Eu fiquei tão empolgado em ver e saber que existiria um outro filme depois. Isto nos inspirou em colocar também o trailer da Parte III no final da Parte II. Desta maneira o público poderia saber que iria ter um terceiro filme. "É isso mesmo que estão vendo, pessoal! A continuação já está filmada e estará chegando em breve." Novamente, eu senti isso naquela época, quando promover filmes não dependiam da internet, o pessoal sequer tinham ideia do que poderia vir, diferente do que temos hoje em dia. Mas sim, acho que seria muito mais "inteligente" ter feito as pessoas saberem que seria a parte dois de uma trilogia!


A Parte II foi de um jeito muito mais sombria do que o original. Você acha que isto fez o público ficar surpreso demais e talvez manchou a recepção do filme?

O público ficou absolutamente surpresos com isto. Essa coisa toda do 1985 Alternativo... Fomos a lugares que o público não estava preparado ver. Isto de fato é uma das coisas favoritas que mais gosto de toda a trilogia. Esta visão distorcida das coisas. Frank Capra é o padrinho mestre em fazer este tipo de coisa com It's a Wonderful Life (A Felicidade não Se Compra, BRA / Do Céu Caiu Uma Estrela, de 1946).

Originalmente, Doc e Marty viajariam para o velho oeste no final do roteiro da Parte II. Durante o processo vocês devem ter percebido que o roteiro original da Parte II estava ficando muito longo e tiveram que transformar a parte do velho oeste no começo da Parte III. Qual foi originalmente a estrutura da história para a Parte II? Como ela seria?

[Nota: leia nosso artigo do Blog BTTF explicando cada alteração dos roteiros]

Existiam 4 atos. Primeiro ato do roteiro da Parte II era no futuro. Segundo ato era no 1985A. Terceiro ato era em 1955. Quarto ato era em 1885... e foi bem aí que estávamos cometendo um erro. Quantas peças (de teatro ou até mesmo cinematográficas) possuem um quarto ato? Para um filme, quebrar em 4 atos, não era uma boa ideia. Quando estava escrevendo... ficou muito claro pra mim... a ideia que estávamos entrando num outro período do tempo... e estava introduzindo muitos outros novos personagens... toda a parte de 1885, sozinho, já dava por si só seu próprio filme.


Teve muita coisa acrescentada para o roteiro da Parte III quando decidiram que ele seria um filme próprio?

Ah sim. Teve que ser estendido ao máximo à nossa necessidade. Existiam 165 páginas de roteiro para a Parte II e pelo menos 40 ou 45 páginas somente para a parte de 1885. Como sempre, foi tudo muito apressado. O relacionamento do Doutor e da Clara precisava de um alívio e de ser construído melhor. Precisava de muito mais tempo de tela. Colocamos isso no set up e então fomos melhorando... Tinha muita coisa que fui responsável em escrever de maneira melhor e de modo mais dramático. Dei mais "substância" à história e aos personagens. A história de amor entre o Doutor Emmett Brown e a Clara Clayton foi um exemplo disso e um dos aspectos que faz a Parte III ter o seu próprio charme. O conceito, de certo modo dramatúrgico, Marty e Doc trocaram seus lugares em termos do seu papel dramático na história. Marty se torna o cara que dá os bons concelhos para o Doc e este que toma as atitudes sem responsabilidades.

Explique como foi que conseguiu chegar no resultado de 165 páginas para o roteiro da Parte II? Foi um roteiro que você já sabia que seria difícil de ser feito. Você acabou se apaixonando pela história e pelo que foi escrito?

Não seria bem se apaixonar pela história. Parte disso, como um escritor, é saber quando sua história e roteiro estão funcionando bem. Você reconhece isso porque seus personagens começam a contar à você o que eles vão fazer. Você não precisa revirar sua cabeça e dizer, "O que será que o Doc faria aqui?" Eu sei exatamente o que o Doc faria! Isso significa que o personagem foi bem desenhado. A situação também foi bem desenhada. É o mesmo motivo que os melhores seriados (sitcoms) dão certo. Você já sabe que quando Lucy e Ethel (de I Love Lucy, clássico seriado de TV norte-americano e um dos mais aclamados até hoje, foi de 1951 a 1957), conseguem um trabalho numa fábrica de doces que as coisas vão ficar engraçadas rapidamente. É porque os personagens estão bem estruturados, bem escritos, bem desenhados, e eles dizem o que irão fazer. Quando se tem personagens maravilhosos, e você sente como se já os conhecesse, já sabe o que eles vão fazer. É algo que fica muito fluído e orgânico.

Uma ideia que vocês pensaram para a Parte II foi a do Marty ir de volta à década de 1960 e bagunçar as coisas por lá. Abandonar essa ideia teria algo a ver com o fato de Crispin Glover (George McFly) não ter retornado para as partes II e III por questões de disputas financeiras?


Ele não estaria envolvido em nada. Nós não começamos escrever uma palavra até depois do seu agente nos dizer "ele não estará mais envolvido". Na versão dos anos 60 da Parte II ele seria um palestrante convidado em alguns dos campus da Berkley, ou algo assim. Ele estava fora da cidade, não estava em Hill Valley, não fez nenhuma aparição no roteiro. Achamos que ele poderia mudar de ideia e se ele não quisesse nós puderíamos pegar outra pessoa.

O final da Parte I nunca foi para se ter uma sequência. O que vocês fizeram foi uma brincadeira com aquela ideia de que a aventura sem continua [nota: como nos velhos filmes de western onde o herói sempre se deparava com uma nova aventura no final e o sol brilhava atrás, em suas costas]. Vocês nem sequer faziam ideia de criar uma trilogia logo no início e tão pouco sonhavam que o filme poderia ter sucesso suficiente para suportar alguma sequência. Entretanto, por causa do tremendo sucesso que Back to the Future, levou requisitarem novos filmes. Você já desejou ter a chance de planejar a trilogia desde o começo, desde o primeiro dia?


Nunca pensamos nisso. Não dá! O que está feito está feito. Terminamos da maneira que a gente queria terminar. Tudo acabou saindo melhor do que a gente poderia ter imaginado. Não tem nem como pensar nesta questão... Nós não temos uma máquina do tempo (infelizmente). Não dá pra voltar e fazer desta outra maneira. Tendo aprendido lições sobre viagem no tempo, seria algo perigoso tentar e fazer algo (risos). Melhor não.

Tudo funcionou tão perfeitamente com o Back to the Future... O elenco, o roteiro e a história foram todos perfeitos. O filme foi um sucesso financeiro em 1985 e a série ainda é incrivelmente popular nos dias de hoje, cativando sempre novas pessoas. Você aprecia ainda mais o sucesso do Back to the Future porque lutou no início de sua carreira para fazer filmes que realmente fossem bem-sucedidos financeiramente?

O fato é, e eu sempre vou dizer isto quando eu converso com cineastas, a falha em qualquer coisa é a experiência do aprendizado. Nós estávamos muito mais preparados com o sucesso de Back to the Future porque passamos pelas falhas de bilheteria de outros filmes. Você não quer começar a acreditar na sua própria impressão do que está fazendo. Pessoas se metem em problemas por causa disso, acreditando que elas não podem errar. O sucesso nas bilheterias é algo que você não pode prever. Você só tem que fazer o melhor filme que puder! Você tem que tentar e ser capaz de olhar pra trás e se sentir bem sobre o que realizou.


Você fez muitas coisas em sua carreira. Você escreveu outros filmes, escreveu histórias em quadrinhos/banda desenhada e romances. Mas há pessoas como eu que sempre querem falar com você sobre "Back to the Future". O sucesso do filme se tornou algo cansativo pra você?

Sabe, é tão raro alguém receber algo como "De Volta para o Futuro" em sua carreira. É uma benção pra mim todos os dias! Nunca fico chateado quando alguém vem até mim e diz: "Simplesmente amo De Volta para o Futuro". Por que eu ficaria chateado com isso?


Fonte: Amblin Road

Um comentário:

  1. Cara acabei de ler. Amei !!! Me desculpe se o texto ficar um pouco longo. Gosto muito do Gale. O Cara manda bem nos roteiros. Até Batman e Aranha ele já escreveu !!! Eu, entendo o pensamento dele sobre os filmes da Marvel e quadrinhos da Editora do Aranha. Realmente fazem muitos anos que eu compro apenas o necessário nos quadrinhos. Não dá para comprar tudo que a Editora quer. Bob Gale citou o Zemeckis no Flash. Uma pena que o Zemeckis não pegou o Flash. Mas Zemeckis vai fazer o Convenção das Bruxas !!! E Gale disse que o Zemeckis gosta do Sargento Rock !? Já pensou Sargento Rock pelo Bob Zemeckis ?! Mas agora vamos a De Volta. Dei muitas voltas. O Zemeckis e Gale não foram bem com os filmes Febre da Juventude ,Carros Usados e 1941.Os tres são cults agora. Mas nunca foram reavaliados pelos público ao meu ver. A Disney não apostou no De Volta.Tinha medo por causa do tema do Incesto. Me surpreendi com o Gale ter medo do filme Explores do Dante !!! Outro filme que nunca ganhou a fama que merece !!! Mas eu entendo esse receio do Gale. Gremlins do Dante deu muita grana !!! E foi o primeiro filme produzido pelo Spielberg a dar dinheiro !!! E Goonies era do Dick Donner !!! Donner já tinha decolado literalmente com o Superman !!! Eu entendo o Thomas Wilson ficar preocupado. Zemeckis e Gale ainda eram apostas. Eu lembro das criticas do De Volta Para o Futuro Parte 2 e 3. Dividiram as opiniões. Mas acredito que por causa do VHS. Essa segunda e terceira parte começaram a ganhar mais fãs. A parte 3 eu vi no Cinema !!! Foi o primeiro filme que vi no Cinema !!! Na época apenas o Gale fez o roteiro das continuações. Zemeckis passou anos envolvido no Roger Rabbit. Tiveram que reescrever muita coisa. E disse tudo o Gale. De Volta lembra muito Além da Imaginação e Quinta Dimensão !!! Podem ver e comparar. Aliás eu já vi De Volta o primeiro em preto e branco. Dá outro clima !!! De Volta não tinha propaganda. Verdade. O Star Wars original somente depois vai investir mais nos brinquedos. Acredito que até hoje a Universal deve ter ficada arrependida por não ter criado mais produtos do De Volta. E outra verdade do Gale. Não tinha continuação nos anos 70 para trás !!! Eram nos dedos as continuações !!! E sim O De Volta 2 é mais sinistro. Lembra o Império Contra Ataca e muito da Felicidade do Frank Capra !!! E Gale fez bem mais o Zemeckis. Talvez um quarto filme não rendesse. O Terceiro é um tudo ou nada. Aquele clima do Velho Oeste é demais !!! E que texto longo !!!

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